Por Marco Aurélio Cidade
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publicado por propagandaearte, em 18.04.12 às 12:29link do post | favorito

O

 

EMBURRECIMENTO POPULAR

 

VIA TV

 

E A ASCENÇÃO/ASSUNÇÃO

 

DA CLASSE C.

 

 

 

 

 

Acabo de ler no Meio & Mensagem um artigo bem interessante do André Porto Alegre (jornalista e publicitário, membro do Conselho de Adm. e da Dir. Exec. da APP – Assoc. dos Prof. de Propaganda, Conselheiro do CONAR - Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária) sobre a assunção da classe C a partir de análise da nova grade de programação da TV.

Bem didático, logo no início de seu texto (segue link aqui - http://www.meioemensagem.com.br/home/midia/ponto_de_vista/2012/04/16/A-assuncao-da-Classe-C.html)
o leitor fica bem situado quanto à diferença entre ascensão e assunção e no decorrer de sua explanação/aula não pude deixar de ser tomado por certa indignação (não com o André, que fique claro) que, creio, qualquer pessoa com um mínimo de bom senso e deseje um Brasil melhor, concordará comigo.

Temos atualmente, segundo pesquisas e alardes da presidente Dilma Rousseff, um Brasil com mais de cinquenta por cento da população compostos pela classe C, fato inédito, já que “nunca antes na história desse país” houve uma migração tão acentuada da classe D para a classe C. Mudança comemorada com pompa e circunstância pela “administração” do Brasil, ou seja, pelos “mesmos”.

A meu ver, passar de desgraçado para miserável não proporciona grandes benefícios a ninguém, pois acredite se quiser, tal “façanha” é amplamente comemorada pela politicalha brasileira.

Não bastasse isso e concordando plenamente com o André, digo que infelizmente a TV brasileira (considerada uma das melhores do mundo!) ainda insiste em impor à audiência um emburrecimento, uma programação de baixíssima qualidade, empurrando goela abaixo do pobre público os intragáveis “BBB’s” da vida. Ou da morte; quem sabe.

A questão mais desagradável ainda é que a TV brasileira acha que pobre é burro e tem mau gosto. Ou então não compreenderá uma programação mais sofisticada, mais inteligente, mais cultural, mais
refinada. Basta experimentar dar um pedaço de filé
minhon a quem come constantemente carne de pescoço pra ver o que o sujeito
acha. Simples assim.

É obvio, é mais que óbvio que ninguém gosta do que é ruim. Experimentemos levar um grupo de pessoas pobres, ou da classe C, como queira, das mais variadas faixas etárias a um museu e oferecermos-lhes uma
aula sobre o assunto. Eu duvido que não gostem. E vão compreender tudo direitinho!

Experimente levar pessoas pobres ao Teatro Municipal para assistir Tosca, Carmina Burana, O lago dos Cisnes ou qualquer outro espetáculo que o valha para ver se não vão gostar. Podem até não compreender. Afinal, ninguém é obrigado a compreender um espetáculo desses sem um mínimo de informação. Mas gostarão, sem dúvida. Alías, deixo claro que muita perua famosa, muita socialite e muita gente rica de berço mesmo, não entende patavinas, mas tira uma onda...

Lembro bem da mostra do Botero no Museu Nacional de Belas Artes, na Cinelândia. A fila dava a voltas no quarteirão. Um sem número de alunos de escolas públicas teve essa maravilhosa oportunidade e adorou ver as esculturas gordinhas do artista. Um sem número de pessoas das classes D e E  acabaram por ter a mesma chance também, uma vez que houve  o oferecimento de ingressos a preços populares. Adoraram. Portanto achar que o que as pessoas da classe C gostam é de “surrasco na lage” e pagode é ledo engano.
Achar que o que as pessoas da classe C gostam de lixo televisivo também é ledo engano.

Ser de origem humilde, ter hábitos mais simples e gostar de estar com a família e os amigos de maneira mais informal, descontraída e escutar um sambinha não tem nada demais. Cada povo com suas peculiaridades. O povo brasileiro tem o churrasco e o samba. Acompanhados de um bom sol e uma cervejinha bem gelada, então...

É uma questão de hábito. Mudar a grade para bons programas com conteúdo educativo mudará a cabeça do povo. Não é necessariamente preciso encher o saco de ninguém colocando vinte e quatro horas por dias programas de entrevistas com “intelectuais” ou lá o que seja. Ninguém merece.

Hoje em dia com a infinidade de canais por assinatura temos condições de estar em contato com o que está acontecendo no mundo inteiro. Se houver vontade política a TV brasileira pode oferecer ao seu público programas de altíssimo nível de informação das mais diversas formas. Principalmente como documentários, jornalísticos ou humorísticos (tipo os progamas da Regina Casé, como 'Um pé de que', que passa informação e cultura com humor) que o Brasil faz tão bem.

O André citou sabiamente o exemplo do “O Povo na TV”, da década de 1980; aquela coisa que chamavam de programa.

É preciso compreender uma coisa: o anunciante quer é vender para o seu público. A mensagem publicitária deve conter informação suficiente para levar o target ao consumo. Agora, porque que o público deve ser obrigado a engolir uma programação de má qualidade? É natural que o anunciante vai optar claramente pela programação que mais tiver a ver com o seu público e sua mensagem comercial irá conter a informação necessária para
convecê-lo a comprar, conforme já disse acima. Como isso vai ser passado ao público já passa a ser um probema dos criativos.

O povo brasileiro da classe C (aquela do ‘surrasco na lage’, lembra?) merece e anseia por uma programação televisiva de melhor qualidade, com mais informação, um bom entretenimento. Coisa que encontra (e vai buscar; principalmente agora que está ganhando um bocadinho mais) nos canais por assinatura. Caladinha, sem alarde, mas vai. E por isso mesmo está ficando mais crítico, mais exigente, mais seletivo (graças a Deus!). Está aprendendo com o que os canais estrangeiros (e alguns nacionais, não se pode
negar) oferecem.

O que muitos sabem, mas não dizem é que, para o governo brasileiro, “povo bom é povo burro, doente e carente de heróis”. Assim fica muito mais fácil de manipular. O resto é demagogia.

Só se esquecem que já estão todos (ricos, pobres e miseráveis) de saco cheio de Faustões, BBB’s e tantos outros mais desse mesmo “nivelzinho classe C”.

A classe C mudou. Ainda continua pobre, ganhando muitíssimo mal, sofrendo nos hospitais públicos, no sistema público de transporte, com a falta de segurança. Mas mudou. Está mais pensante e sem medo
de dizer não ao que é ruim, ao que não presta. Está, portanto no bom caminho.

Viva a classe C.

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Luis Carlos a 20 de Abril de 2012 às 17:21
Retórica - assunção da classe C

Aviso aos defensores da fixação por títulos, de mentes colonizados, destaco que os números do Instituto Data Popular, mostram que entre 2002 e 2010 a participação “dos classe C” na indústria do turismo saltou de 18% para 34%, representam quase 48% das pessoas que viajam nas companhias aéreas do país. Este, entre outros dados, demonstra que entender “os Classe C” é no mínimo deixar de lado a vista grossa preconceituosa que a mídia tem adotado como natural desde sempre.
“...Bem-vindo ao mundo do carnê, do consórcio, do SPC. Bem-vindo ao mundo do metrô, do buzão, da lotação, da CBTU, do seminovo zerado... Bem-vindo ao mundo do Ratinho, Reginaldo Rossi, Daniel, do funk e do Mastruz com leite..."
Parafraseando o antropólogo Roberto DaMatta, digo que a fixação da antiga classe média por títulos e hierarquia é herança da época da colônia. “As pessoas aqui querem ser vistas como diferentes, como superiores aos outros, e não gostam de se misturar”.

* Luis Carlos – Professor do Curso de Publicidade da Faculdade Zumbi dos Palmares, publicitário e especialista em marketing.

propagandaearte a 23 de Abril de 2012 às 12:09
Caro Professor Luis Carlos:
Primeiramente fico grato por seu comentário e pelo contributo ao meu post , com sua opinião sobre o assunto abordado. Em segundo lugar digo que talvez eu não tenha compreendido de todo as suas colocações. Está corretíssimo quando elucida os leitores quanto a participação da classe C no turismo e aproveito para complementar: não foi só no turismo que a participação aumentou, mas sim em inúmeros outros setores. No entanto, segundo minha visão, ainda é uma classe muito sofrida e que mesmo passando a ter acesso ao diversos “mundos” que não lhes eram permitidos visitar, creio que o mais saudável era estarmos comemorando o fim da classe C. E não só dela, mas também das classes que se seguem, ou seja, D e E. Comemorar isso seria realmente muito louvável. Saber que o povo de um país tem acesso à literatura, à boa alimentação, à boa saúde pública, ao lazer, tem um emprego que garanta com tranquilidade o sustento da família seria no mínimo a realização do sonho de todos os que vivem com dificuldade e daqueles que lutam (de uma forma ou de outra, isso não vem ao caso aqui) para que a opressão, a miséria, a fome, o desabrigo e outras mazelas acabem de vez. Quando me referi a alguns programas de TV (e é nesse ponto que creio não ter entendido a sua colocação) quis dizer que há muitos de baixo nível, tais como os que citou e penso que por ser pobre uma pessoa não necessariamente tem que ter mau gosto e ser analfabeta ou ter pouco ou nenhum acesso à cultura. Citei o exemplo da exposição do Botero , pois pude confirmar com os meus próprios olhos a quantidade enorme de pessoas humildes que se interessaram porque foi bem divulgada e oferecia preços populares. Que todos sejam muito bem-vindos sim, ao mundo do consórcio, do carnê do SPC e tantos outros. Por que não comprar por carnê? Darei um exemplo; eu vivo na Europa, mais precisamente em Portugal, e identifico aqui uma situação com a qual nós brasileiros não estamos acostumados e por isso mesmo, inusitada: dificilmente se compra aqui com cheque pré-datado, com carnê ou com cartão de crédito parcelado. Para nós esse tipo de compra é prática comum há muitos anos e estranhamos bastante quando não encontramos tal facilidade. E digo mais: muitas, inúmeras vendas são perdidas por este motivo. Só não louvo o mundo do Ratinho, do Silvio Santos, do Big Brother e tantos outros. No entanto isso não significa que deixe de compreender quem aprecie este tipo de divertimento. Digo também em meu texto que a questão de rótulos não deveria mesmo existir já que não há pessoas superiores ou inferiores. Há, sim, pessoas boas e más, preconceituosas e não preconceituosas. Meu pensamento é o de que com tantos problemas a serem resolvidos no mundo (não preciso citá-los, pois o professor deve saber de cor e salteado quais são), não deveria haver tempo para o ser humano pensar nessas coisas. No entanto, pensa. Eu pelo menos, tenho mais o que fazer do que me preocupar se o sujeito que está ao meu lado no restaurante, no autocarro, no comboio ou no elétrico é preto, amarelo, pobre, rico ou lá o que o valha. Infelizmente há pessoas que até escolhem onde sentar. Fazer o quê, não é? Nas minhas profissões (publicitário, professor e comerciante) não há espaço para qualquer tipo de preconceito e além do mais tive o privilégio de desde pequenino estudar em escolas públicas e também estudei em algumas particulares, portanto pude avaliar bem os meus coleguinhas e ter convívio com pessoas de diversas camadas sociais. Joguei bola no morro e frequentei bons apartamentos/casas. Minha conclusão foi a de que todos são iguais. Não vai aqui nenhuma hipocrisia e é obvio que gosto de conforto, gosto do que é bom, mas muitas vezes sentia-me bem mais à vontade na casa simples de um coleguinha de escola primária que morava no morro (que não tinha a violência que tem hoje por conta do tráfico). O que importa é que todos vivam bem, se compreendam e tenham igualmente atendidas as necessidades do ser humano. Além disso, que possam realizar o que almejam para suas vidas. A preocupação maior, como disse em meu post, é a de que é preciso nos precupar mais com o que oferecemos na TV, principalmente para as crianças.
Novamente, fico grato por seu comentário. O espaço está à disposisção.
Um abraço.
Marco.

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